Acabei de ler o livro Histórias reais de Sophie Calle. Mais uma vez, são tênues ou mesmo imperceptíveis os limites entre vida pública e privada, entre privacidade e exposição que marcam o trabalho dessa artista plástica francesa. Nesse livro, pequeno mas extremamente interessante, ela descreve pequenos contos sobre sua vida (ou pelo menos assim ela afirma) acompanhados de fotografias correlatas. São contos sinceros e engraçados sobre coisas corriqueiras (algumas nem tanto) que passam pelo filtro de sensibilidade de sua arte. Visões pontuais sobre assuntos como casamento, amores, relações sexuais, separação, famíla. Recomendo.
Segue um desses contos, um dos quais mais gosto.
Segue um desses contos, um dos quais mais gosto.
"Fiz um exame médico. Tive que preencher um questionário de seis páginas, cerca de trezentas perguntas. A todas, com exceção de uma, respondi NÃO. Já havia contraído rubéola, varíola, catapora, cólera, tétano, tuberculose, febre amarela, escarlatina ou tifo? Tinha vertigens, colesterol, diabetes, pressão alta, dor de cabeça, dor no coração, na barriga, tinha filhos, alergia, cálculos, palpitações, ondas de calor, problemas cardíacos, dentários, auditivos, espasmos musculares, crises de epilepsia, dores lombares, tonteiras, desmaios, problemas gástricos, intestinais, problemas de visão? E, de repente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, perdida no meio daquilo tudo, a pergunta: 'Está triste?'"
Engraçado como a tristeza se torna apenas mais um sintoma numa longa lista. Um mero dado médico a mais. E, assim como se torna um simples sintoma, é tratado como tal. Medica-se a tristeza e segue-se adiante. Mas será que é só isso? Será que a tristeza não é um processo um pouco mais significativo e importante (até necessário)? Hoje em dia, vivemos num mundo onde não se pode sentir dor e tristeza, ou, pelo menos, tenta-se ao máximo evitá-las. Há vezes, entretanto, que são necessárias; são importantes como forma de aprendizagem e reconhecimento. Sem dor ou tristeza seria bem difícil conhecer seus antônimos e valorizá-los. Saberíamos da felicidade se nunca tivessemos experimentado da triteza?
Histórias reais. Sophie Calle. Trad. Hortencia Santos Lencastre. Agir Editora. Rio de Janeiro. 2002. (Conto extraído da pág. 79)
Engraçado como a tristeza se torna apenas mais um sintoma numa longa lista. Um mero dado médico a mais. E, assim como se torna um simples sintoma, é tratado como tal. Medica-se a tristeza e segue-se adiante. Mas será que é só isso? Será que a tristeza não é um processo um pouco mais significativo e importante (até necessário)? Hoje em dia, vivemos num mundo onde não se pode sentir dor e tristeza, ou, pelo menos, tenta-se ao máximo evitá-las. Há vezes, entretanto, que são necessárias; são importantes como forma de aprendizagem e reconhecimento. Sem dor ou tristeza seria bem difícil conhecer seus antônimos e valorizá-los. Saberíamos da felicidade se nunca tivessemos experimentado da triteza?
Histórias reais. Sophie Calle. Trad. Hortencia Santos Lencastre. Agir Editora. Rio de Janeiro. 2002. (Conto extraído da pág. 79)