terça-feira, 11 de agosto de 2009

Êtes-vous triste?



Acabei de ler o livro Histórias reais de Sophie Calle. Mais uma vez, são tênues ou mesmo imperceptíveis os limites entre vida pública e privada, entre privacidade e exposição que marcam o trabalho dessa artista plástica francesa. Nesse livro, pequeno mas extremamente interessante, ela descreve pequenos contos sobre sua vida (ou pelo menos assim ela afirma) acompanhados de fotografias correlatas. São contos sinceros e engraçados sobre coisas corriqueiras (algumas nem tanto) que passam pelo filtro de sensibilidade de sua arte. Visões pontuais sobre assuntos como casamento, amores, relações sexuais, separação, famíla. Recomendo.

Segue um desses contos, um dos quais mais gosto.


O exame médico

"Fiz um exame médico. Tive que preencher um questionário de seis páginas, cerca de trezentas perguntas. A todas, com exceção de uma, respondi NÃO. Já havia contraído rubéola, varíola, catapora, cólera, tétano, tuberculose, febre amarela, escarlatina ou tifo? Tinha vertigens, colesterol, diabetes, pressão alta, dor de cabeça, dor no coração, na barriga, tinha filhos, alergia, cálculos, palpitações, ondas de calor, problemas cardíacos, dentários, auditivos, espasmos musculares, crises de epilepsia, dores lombares, tonteiras, desmaios, problemas gástricos, intestinais, problemas de visão? E, de repente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, perdida no meio daquilo tudo, a pergunta: 'Está triste?'"

Engraçado como a tristeza se torna apenas mais um sintoma numa longa lista. Um mero dado médico a mais. E, assim como se torna um simples sintoma, é tratado como tal. Medica-se a tristeza e segue-se adiante. Mas será que é só isso? Será que a tristeza não é um processo um pouco mais significativo e importante (até necessário)? Hoje em dia, vivemos num mundo onde não se pode sentir dor e tristeza, ou, pelo menos, tenta-se ao máximo evitá-las. Há vezes, entretanto, que são necessárias; são importantes como forma de aprendizagem e reconhecimento. Sem dor ou tristeza seria bem difícil conhecer seus antônimos e valorizá-los. Saberíamos da felicidade se nunca tivessemos experimentado da triteza?


Histórias reais. Sophie Calle. Trad. Hortencia Santos Lencastre. Agir Editora. Rio de Janeiro. 2002. (Conto extraído da pág. 79)

domingo, 9 de agosto de 2009

Voltei a Blogar

Seis anos após o Maestiter Contristare, cinco após o Destilando a Europa, volto com um terceiro blog: De Vento (ou Por Uma Dogmática Desconstrutivista). Um dia eu explico o título. Mas, na verdade, é que há algum tempo sinto a vontade de escrever.

Não sei desenhar (e nem me arrisco), não sei tocar um instrumento (até tentei, mas aprendi que sou melhor crítico), até tento tirar umas fotos, mas creio que meu meio de expressão seja a escrita. Escrever, e usar as palavras, sempre fora meu modo de entender e modificar a realidade. Vamos ver se ainda consigo...

Parto de uma premissa, de uma proposição do poeta T. S. Eliot: “Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not the expression of personality, but an escape from personality. But, of course, only those who have personality and emotions know what it means to want to escape from these things.”

Covarde? Talvez. Mas acho que aqui será um bom campo para essas fugas. Pelo menos tentarei lapidá-las em algo melhor que meros sentimentos e resquícios de uma personalidade em fragmentação.

Prometo, e já sei que não serei de todo bem sucedido, não ser tão melancólico quanto o era no Maestiter, e nem usarei a mesma fórmula. É claro que não há como fugir das canções e suas letras, mas encontrarei outro formato. Tentarei também ser menos prolixo e menos pedante. Difícil, mas será um bom exercício.

Que se dê início aos trabalhos...